“PROVOCAÇÕES TEÓRICAS”

8 de julho de 2015

Este é um convite ao desenvolvimento de uma vida intelectual comprometida com as práticas de transformações sociais.

Toda prática está baseada em algum conhecimento, alguma leitura do mundo e dos fenômenos que nele ocorrem ou em alguma teoria sobre eles. Desde as ações mais banais até as formas de organizações mais sofisticadas; desde as propostas de transformações sociais até as de conservação do status quo, todas são mediadas por ideias a respeito do que se pretende atingir. Atualmente, devido a séculos de conhecimentos acumulados pela humanidade, qualquer decisão, planejamento, estudos têm algum fundamento ou influência teóricos.

Mas, geralmente, não nos damos conta da presença das teorias e conceitos nas nossas vidas -em nossos pensamentos, ações e sentimentos. Entretanto, basta um olhar mais atento e um pouco de conhecimento sobre as teorias para descobrirmos que nenhum pensamento, sentimento ou ação é totalmente espontâneo, eles têm por base um conjunto de ideias construídas socialmente e que nos é transmitido em nosso processo de socialização. Uma pessoa que nunca estudou determinados teóricos reproduz em suas falas cotidianas alguns conceitos que foram desenvolvidos por eles e tornaram-se populares, passaram a fazer parte de nosso dia a dia.

Quando alguém diz que “aquela criança age de forma tal… por que é traumatizada”, é da teoria freudiana sobre trauma psicológico que ela está falando. Mas, geralmente não sabe disso. Ela passou a compreender o conceito de trauma e sua aplicação pois este conceito foi divulgado por programas nas televisões, por meio de filmes que assiste, pelos médicos e psicólogos aos quais já teve acesso, etc. Mas, não conhece o lugar que esse conceito ocupa no conjunto da teoria freudiana, quais os alcances e limites que esse conceito encerra, que decorrências seu uso pode acarretar, qual a filiação ideológica e de linhagem teórica que compuseram esse conceito tão popular.

Muitas vezes o conceito e a teoria que o gerou são usados de maneira descontextualizada ou de forma contrária a sua proposta original. Mas, também, são revistos, revisitados, reformulados para servirem melhor à novas demandas, para atualizarem-se diante de novas descobertas, pois as teorias e conceitos nunca são estáticos. São muitos os fatores que imprimem suas marcas no dinamismo das teorias e conceitos: a necessidade de novas soluções; a reflexão sobre as insuficiências e contradições que os testam diante da prática; as disputas por diferentes interesses em suas aplicações; a forma como cada grupo social, cada cultura, se apropria deles, dentre outros.

Quando se refere à classe social de determinado fulano ou fulana, seja na vida, na novela, nas músicas ou qualquer outro ambiente, está se referindo a teorias clássicas da sociologia, como as de Max Weber, Karl Marx e outros. E pode-se fazê-lo sem ter muitas bases para argumentar sobre elas, defendê-las ou criticá-las, em uma discussão. Vale a pena refletirmos sobre como ocorre o acesso às teorias e conceitos. Por que muitos de nós não têm base argumentativa consistente em conhecimentos que dizem respeito à nossa vida em sociedade? Por que não conhecemos as regras do jogo no qual estamos inseridos? Quem tem acesso e sabe fazer uso dessas regras? Como buscar esse conhecimento?

Sentir empatia ou intolerância em relação a determinados grupos sociais, também são construções sociais e têm por fundo um determinado conjunto de explicações sobre o mundo. As teorias e conceitos entram como armas nessa batalha, seja para reforçar dominações ou para combatê-las. Os grupos dominantes fazem amplo uso das teorias e conceitos, contratam assessorias que as manipulam eficazmente, investem no desenvolvimento daquelas que lhes interessam, veiculam-nas sem explicá-las, por meio de sua propaganda em todos os meios e instituições nas quais estão inseridos.

Enfim, as teorias estão na nossa vida, quer as busquemos ou não. Então, por que não buscá-las para saber como fazer um melhor uso delas? Afinal, o conhecimento que é buscado na fonte é mais consistente, completo e passível de críticas do que o conhecimento que nos chega fragmentado, descontextualizado, mediado por interpretações muitas vezes duvidosas, pautadas por interesses que podem não ser os mesmos nossos, ou sequer das autoras e dos autores que desenvolveram tal conhecimento.

Para que possamos manipular tais conhecimentos, é crucial que busquemos as teorias, leiamos os clássicos, os autores originais dessas construções conceituais e de seu conjunto de ideias.

Para isso, publicaremos aqui algumas leituras realizadas por estudiosos que consideramos sérios e comprometidos com a divulgação honesta do conhecimento e indicaremos as fontes dessas leituras. Também, publicaremos leituras desenvolvidas por nós, autoras do blog, sempre indicando as fontes consultadas.

Pretendemos provocar e  instigar a busca autônoma do conhecimento, assim como o desenvolvimento de uma visão crítica em relação a ele.

A ciência sociológica é tão complexa quanto a infinidade de formas que os grupos sociais inventam e reinventam para sua sobrevivência e convivência. Em sociologia, nenhuma resposta é definitiva por mais consistente que seja, até por que os sujeitos que e com quem ela estuda estão vivos e em dinâmica criativa constante.

Nenhum sociólogo é dono da verdade, mesmo que pareça, temporariamente e em determinado contexto.

Edwiges Rabello de Lima

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