Lélia Gonzalez: Racismo e sexismo na cultura brasileira

Fonte: Lélia Gonzalez: Racismo e sexismo na cultura brasileira

CONVITE À LEITURA DO TEXTO

Por Edwiges Rabello de Lima

Lélia Gonzalez apresentou o texto Racismo e sexismo na cultura brasileira no IV Encontro Anual da Associação Brasileira de Pós-graduação e Pesquisa nas Ciências Sociais , Rio de Janeiro, em 1980. Nele, Gonzalez busca respostas para explicar a identificação do dominado com o dominador -problemática que Frantz Fanon já havia analisado, porém, a autora debruça-se sobre o caso brasileiro.

Esta questão principal leva a outras, como:

…o porquê dessa identificação. Ou seja, que foi que ocorreu, para que o mito da democracia racial tenha tido tanta aceitação e divulgação? Quais foram os processos que teriam determinado sua construção? Que é que ele oculta, para além do que mostra? Como a mulher negra é situada no seu discurso? (GONZALEZ, 1984: 224)

Este e um texto que, apesar de ser apresentado no meio acadêmico e de desenvolver uma linha de raciocínio lógico, é escrito de forma fluida e com uma linguagem que subverte os cânones para esse universo formal.

Seu suporte epistemológico, ou seja, os referenciais teóricos que utiliza, são da psicanálise de Freud e Lacan. Ao mesmo tempo que apresenta elementos da cultura brasileira, especificamente ligados à africanidade e à vida da mulher negra, procede a análises desses elementos tanto por meio de uma lógica argumentativa, como de momentos de livre associação, ao modo psicanalítico.

Lélia Gonzales

Lélia Gonzales

Para Gonzalez, o mito da democracia racial seria uma estratégia pari passu como a ideologia do branqueamento e teria seu sentido no que denomina “sintomática neurose cultural brasileira”, que nega o racismo e busca ocultá-lo. Desse recalque transbordam manifestações daquilo que não pode ser ocultado: a africanidade presente nas exaltações de simbolismos do Brasil, assim como na violência cotidiana contra todos e todas não brancos.

Para pensar as questões específicas da mulher, propõe-se a abordar a articulação racismo e sexismo a partir da perspectiva baseada nas noções de mulata, doméstica e mãe preta, imagens que são engendradas a partir das funções e dolorosas cargas que as mucamas desempenharam e carregaram em suas costas, nas casas dos brancos e brancas escravagistas, assim como em suas senzalas.

Por um lado, esse texto desvela, já naquele momento, relações que são discutidas atualmente por feministas brancas e negras preocupadas com as opressões de raça, classe, sexo. O nexo entre essas três formas de dominação e exploração já estava denunciado pela esquerda há muitas décadas. Porém, seu mérito está em ir além da hierarquização dessas opressões: classe como determinante fundamental e princípio organizativo; raça e sexo como opressões apropriadas pelo e sustentáculo do capitalismo. Pode-se perceber em sua síntese teórica rastros de sua experiência acadêmica, partidária e seu contato com o feminismo negro, em especial o norte-americano. O certo é que ela explicita os caminhos de sua busca pela própria identidade como mulher negra, passando pelo despertar de uma consciência no interior de experiências em diferentes dimensões sociais.

O texto fascina pela lucidez e a contundência com que Lélia Gonzalez lança-se sobre essas análises, as questões que levanta, as ocultações que denuncia. Também, a apresentação de elementos da africanidade na cultura brasileira são pontos fortes do texto. Apreende-se nele sua militância feminista negra, coerente e comprometida com a busca das raízes da perpetuação do racismo e da violência sexista racista; sua trajetória de descoberta de si e dos incômodos que atingem às mulheres negras, em muito larga medida. Sua própria proposição interpretativa -“O lugar em que nos situamos determinará nossa interpretação sobre o duplo fenômeno do racismo e do sexismo.” (224)- é uma demarcação de seu devir.

Por outro lado, e sempre lembrando que toda obra é datada e que deve-se questionar se haviam outros referenciais teóricos dos quais ela poderia ter lançado mão para seu suporte epistemológico, coloco em destaque os inconvenientes e distorções gerados pela transposição de categorias psicanalíticas para a compreensão da sociedade e seus fenômenos. Assim como ela, outros expoentes nacionais e internacionais das análises sobre a subjetividade que constitui as formas de dominação, sua aceitação ou resistência, fundamentaram-se na teoria psicanalítica.

Mesmo com tal hegemonia epistemológica, não podemos deixar de questionar como categorias que se desenvolveram a partir de observações em indivíduos poderiam comportar outro tipo de complexidade como a social? Além de que, como uma teoria européia, de perspectiva masculina e branca e sobre a família branca burguesa europeia poderia contribuir para a compreensão da formação social e dar fala às mulheres dominadas não brancas num país latino americano?

Edwiges Rabello de Lima - cientista social/socióloga,
professora de Sociologia no ensino médio, blogueira amadora.

EPÍGRAFE DO TEXTO Racismo e sexismo na cultura brasileira

Cumé que a gente fica?
… Foi então que uns brancos muito legais convidaram a gente prá uma festa deles, dizendo que era prá gente também. Negócio de livro sobre a gente, a gente foi muito bem recebido e tratado com toda consideração. Chamaram até prá sentar na mesa onde eles tavam sentados, fazendo discurso bonito, dizendo que a gente era oprimido, discriminado, explorado. Eram todos gente fina, educada, viajada por esse mundo de Deus. Sabiam das coisas. E a gente foi sentar lá na mesa. Só que tava cheia de gente que não deu prá gente sentar junto com eles. Mas a gente se arrumou muito bem, procurando umas cadeiras e sentando bem atrás deles. Eles tavam tão ocupados, ensinado um monte de coisa pro crioléu da platéia, que nem repararam que se apertasse um pouco até que dava prá abrir um espaçozinho e todo mundo sentar juto na mesa.
Mas a festa foi eles que fizeram, e a gente não podia bagunçar com essa de chega prá cá, chega prá lá. A gente tinha que ser educado. E era discurso e mais discurso, tudo com muito aplauso.
Foi aí que a neguinha que tava sentada com a gente,deu uma de atrevida. Tinham chamado ela prá responder uma pergunta. Ela se levantou, foi lá na mesa prá falar no microfone e começou a reclamar por causa de certas coisas que tavam acontecendo na festa. Tava armada a quizumba. A negrada parecia que tava esperando por isso prá bagunçar tudo. E era um tal de falar alto, gritar,
vaiar, que nem dava prá ouvir discurso nenhum. Tá na cara que os brancos ficaram brancos de raiva e com razão. Tinham chamado a gente prá festa de um livro que falava da gente e a gente se comportava daquele jeito, catimbando a discurseira deles. Onde já se viu? Se eles sabiam da gente mais do que a gente mesmo? Se tavam ali, na maior boa vontade, ensinando uma porção de coisa prá gente da gente? Teve um hora que não deu prá agüentar aquela zoada toda da negrada ignorante e mal educada. Era demais. Foi aí que um branco enfezado partiu prá cima de um crioulo que tinha pegado no microfone prá falar contra os brancos. E a festa acabou em briga…
Agora, aqui prá nós, quem teve a culpa? Aquela neguinha atrevida, ora. Se não tivesse dado com a língua nos dentes… Agora ta queimada entre os brancos. Malham ela até hoje. Também quem mandou não saber se comportar? Não é a toa que eles vivem dizendo que “preto quando não caga na entrada, caga na saída”… Cumé que a gente fica?


REFERÊNCIA

GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje, Anpocs, 1984, p. 223-244. Disponível em: < file:///C:/Users/Configurador/Downloads/RACISMO%20E%20SEXISMO%20NA%20CULTURA%20BRASILEIRA.pdf>. Acesso em: 25 de out.

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